Dentro de um container, em um canteiro de obras, um arqueólogo olha fixamente para a câmera, que afasta pouco a pouco seu foco, de forma a conseguir pegar todo o ambiente. Além do pesquisador, cinco operários, devidamente sentados ao redor de uma mesa e usando capacete, olham um para o outro, com cara de interrogação. Após um breve suspiro, o pesquisador apóia suas mãos sobre a mesa e passa a falar sobre o processo de “construção histórica da cultura material do homem pré-histórico”. Assim, começa uma das muitas atividades de ação educativa, conduzidas por arqueólogos hoje no país.
Durante os últimos anos, esses pesquisadores, cada vez mais, têm ficado em evidência. São vistos como convidados em programas de TV; mostrados como responsáveis pela elaboração de cartilhas escolares; ou, como na ocasião relatada acima, apresentados como expositores dos resultados de suas pesquisas, ao público dito leigo. Nestas situações, o profissional é convidado
a transcodificar a linguagem técnica e restrita a um determinado grupo social – neste caso, o acadêmico-, de forma que ela possa ser compreendida pelos diferentes ouvintes. Este é o desafio a ser enfrentado.
Desde a Portaria IPHAN 230, de 17 de dezembro de 2002, a educação assumiu um papel importante na elaboração e condução das pesquisas em Arqueologia. As atividades de educação nessa área deverão, a partir de agora, estar previstas nos contratos firmados entre os arqueólogos responsáveis pelos estudos e os empreendedores.
O problema passa a ser, então, compartilhar o conhecimento produzido, e não simplesmente atender à obrigação legal demandada pelo regramento federal. A falta de uma normatização no desenvolvimento dessas ações; no entanto, tem permitido ao pesquisador “inovar”, à sua maneira, os métodos que serão aplicados na divulgação científica. Esta é uma situação preocupante, visto que esse profissional, em geral, está aprisionado a modelos de exposição acadêmica, formais, que contribuem pouco para a ampliação do saber, junto a públicos não especializados.
Assim, palestras para a comunidade têm assumido um caráter acadêmico, com a apresentação de termos e discussões exclusivas da área. Ao mesmo tempo, o tom impessoal e a voz passiva, muitas vezes presente nos artigos científicos, são aspectos que permeiam a fala e a escrita dos divulgadores.
Não quero, com isso, afirmar que deveríamos elaborar um Manual de Estilo para Arqueólogos, ou obrigar arqueólogos a fazerem curso de oratória, mas creio ser o momento de repensarmos o papel de nossas atividades frente ao público.
O olhar do pesquisador concentra-se, na maioria das vezes, no exercício de reflexão sobre seu objeto de pesquisa, o passado. Buscando se afastar desse enfoque, o arqueólogo Holtorf, da Universidade de Lund, na Suécia, em sua publicação From Stonhege to las Vegas (2005), destaca que os arqueólogos deveriam tratar com mais profundidade a relação da sua pesquisa com a sociedade contemporânea e o modo como esta sociedade se apropria do conhecimento produzido por eles. É esta relação – permeada de discussões, dúvidas e busca por respostas atuais - que dita o rumo da ciência arqueológica, considerada, por ele, como parte da própria dinâmica de construção da cultura.
Seguindo esta ideia, muitos pesquisadores têm apresentado trabalhos interessantes de envolvimento da comunidade no próprio processo de pesquisa. Este método tem ajudado a diminuir a distância entre o cientista e o público, assim como tem agido como um mecanismo que facilita o acesso ao conhecimento produzido. Voltarei a este assunto em uma próxima postagem.